maio 12, 2008
O Poeta
O poeta é um cajado já rachado
Gasto na estrada d'um velho a caminhar
É um lobo cansado e esfaimado
Que só não está cansado de amar
O poeta é uma arma de fogo
Sem travão de segurança nem balas
É uma mulher tímida que vai a jogo
Sem Ases nem Figuras nas jogadas
O poeta é uma vida enrugada
A voz áspera no xaile da fadista
É as gargalhadas que voam nas noitadas
E a tristeza que sempre nos mancha a sina
O poeta é um cajado já rachado
Gasto na estrada d'um velho a caminhar
É um lobo cansado e esfaimado
Que só não está cansado de amar
de Daniel Afonso

The poet. by ~nettocastro
copyright of the photographer
maio 07, 2008
A tua casa
A tua casa era algo entre névoas. Era algo ameno e confortável, e tudo se podia navegar. O branco da vivenda ocupava sempre o lugar fresco do ar, e parecia impor-se às cores menos luzentes das outras casas. Ficava no canto da vila, virada para o bosque.
A tua casa eras tu à janela, no primeiro piso, a espreitar de dez em dez minutos para ver se eu já tinha chegado e a espreitar dez minutos depois para veres que eu já tinha chegado. Eu adivinhava um sorriso enquanto descias as escadas.
A tua casa estava sempre de entreluz por dentro e tinha cheiros de boas vindas. E andavas à minha frente levando-me pela mão, e falavas, mas pareciam-me pássaros a cantar e a dançar nas teclas de um piano.
A tua casa tinha molduras chamadas janelas onde estava pintado um bosque até ao azul celeste. E havia uma estrada de terra que atravessava o bosque e acabava num sítio que – se o visitássemos – decerto veriamos que ali começava outra estrada.
A tua casa permitia que os raios solares entrassem para desencobrirem dos teus olhos um índice de verde, e tudo parecia que era um filme feito a partir de alabastro. As películas eram segmentos das tuas pequenas unhas a passar pela minha face.
A tua casa calava-se quando eu sentia a energia dos teus braços sobre os meus, enquanto te abraçava e imitavamos asas. E incorporávamos a felicidade. E eram honestos e sinceros todos os arquipélagos que se formaram através da erupção do nosso amor, no fundo do mar.
A tua casa era quando alimentávamos a nudez pura com o desejo de sacrilégios. E seguiamos o trilho que nos levava á intimidade, com cuidado para não tropeçarmos um no outro. Acertavamos todos os passos de dança, no salão vitoriano, os deuses da paixão aplaudiam.
A tua casa era a última estrela a apagar-se naquele bairro, todas as noites. Como se, mesmo depois do sistema solar ter desaparecido, nós continuássemos a reluzir. E havia sempre calor e conforto e segurança e carinho.
A tua casa é uma morada perdida no tempo e na memória, e é o lar do meu refúgio nostálgico. Lá, ainda verias no tecto um pressentimento dos sonhos que sonhei contra ele. Lá, não existe o pranto deste abandono.
de Daniel Paiva

window to my soul by *don-paolo
copyright of the photographer
(obrigado Daniel por este texto que nos faz pensar tanto nas nossas "casas". Espero que envies muitos mais, porque adorei ler-te. Abraço e desculpa o atraso na edição.)
maio 05, 2008
Na serenidade dos rios que enlouquecem
O tempo passou por nós, não vês?
Crescemos, tornámo-nos tristes.
No fundo, crescemos.
Perdemos as brincadeiras,
Os sentimentos sem sentido.
Perdemos a inocência,
A leveza das palavras
Que teimámos tantas vezes
Em esconder.
Não existem culpados,
Mas sentimos no nosso corpo
O ardor dos cactos,
Quando as lágrimas,
Queimando o rosto,
Caem desamparadas no chão.
Não há súplica que ecoe
Nos tempos de vidro,
Nas noites de metal,
Que nos ferem o peito.
Venho para dizer-te,
Que já não tenho endereço,
Que já não tenho idade,
Que este já não é o corpo
Onde tantas vezes te escondias.
de Paulo Eduardo Campos
in "Na serenidade dos rios que enlouquecem"
Ed. Amores Perfeitos, 2005

Sadness by ~joiM
copyright of the photographer
(obrigado Paulo pelas tuas palavras de apreço, são e-mails como o teu que me dão alento para continuar com este projecto em defesa da poesia em português. Quanto ao teu desabafo... olha... o meu forte abraço e acredita que um dia há-de ser dado mais reconhecimento ao trabalho dos poetas portugueses, tanto por parte das editoras como por parte do publico em geral. Até lá, obrigado por partilhares comigo estas trincheiras do combate pela defesa da poesia!)
abril 29, 2008
Margaridas
Queimava o céu com descuido, em longas largadas de pulmões sujos. Tossia e repetia.
O lápis trémulo na mão segurava-lhe as ideias entre a alma e o papel. Arrumava-as à medida que espalhava as nuvens cinzentas pelo céu.
Punho firme, um traço ao alto, outro traço ao baixo. Traço ao alto, traço ao baixo. Um rectângulo. Um prédio. Pilhas de lares. Círculos. Círculos grandes e pequenos, muitos. São as árvores a enfeitar, porque uma cidade precisava de adornos. Pegava nos guaches e sentia o prédio a ganhar vida e as folhas das árvores a abanar. Um pouco de vento e estava quase.
Segurou a folha para ver a contra luz. Faltava só um pouco de brilho e assinar. Augusto, Julho de 2006.
Levantou-se da cadeira, apoiado na mesa e começou a andar para dentro de casa. Procurava o casaco, mas não se lembrava onde o deixara. Com as mãos, tacteava o sofá, o cadeirão, o cabide e encontra-o arrumado no seu lugar. Veste-o, confirma se tem a carteira no bolso, pega na sua bengala e sai. A corrente de ar, bate a porta com força. Dá a volta à chave e começa devagar a descer os degraus do prédio antigo onde mora. Todos estes passos eram exercícios de visualização. Talvez por treinar tanto, até já conseguia ver as baratas a subir as escadas e os canos, por fora das paredes.
Vai sozinho dar o seu passeio matinal. Tira os cigarros e acende um bafo, para o ajudar a caminhar pela calçada do velho bairro de Lisboa, onde é conhecido como Fortes.
Enquanto olhava para ver se ainda está tudo na mesma, a bengala avisa-o que não. Andavam novamente a esburacar a rua. O que seria desta vez?
Vai até ao café do grupo e pede um curto escaldado. No vagar de quem tem tempo, senta-se, acende outro e pergunta o que andam a fazer.
- São os tipos da câmara que andam pr’aí... parece que é por causa da água.
- é... também me disseram isso Sr. Fortes, mas aquilo não vai demorar. Não se preocupe, que não vai atrapalhar os seus passeios.
- Não é pelos meus passeios... era para saber se seria preciso pintar uma fonte no seu lugar.
Sai do café e continua a andar de cigarro na boca, a bafejar o ar. Pára na mercearia para comprar leite e pão. O que lhe valia era a modernidade ainda não ter chegado ao bairro, e tudo estar exactamente nos mesmos sítios de quando foi para lá morar. De pão, leite e bengala na mão já era mais complicado acender o cigarro. Mas insiste, insiste e está nesta insistência quando a Dona Deolinda, do cabeleireiro, passa nesse embaraço e lhe diz
- Deixe lá isso Sr. Fortes! Esse tabaco ainda o vai matar.
- Se me matar, eu pinto um caixão bonito para me enterrar.
Para o fim do passeio ficavam sempre as flores. Para irem mais frescas e à sua Rosário agradar, pensava. Levado pelos diferentes cheiros, não havia dúvida, era ali mesmo.
- Bom dia... queria...
- ... um ramo de margaridas brancas, como habitual, não é Sr. Fortes? Tem de ir pensando noutras flores, porque no Inverno estas não dão.
- Nessa altura eu pinto-as, respondeu.
Pagou, agradeceu e saiu.
Chega a casa pelo caminho inverso, pousa as compras na cozinha e arruma o leite no frigorífico. Fecha o saco do pão com um nó forte.
Coloca as margaridas na jarra preferida de Rosário e deixa-as junto das suas cinzas. Senta-se na varanda, pega no lápis trémulo e imagina a fonte que ficaria bem na rua do bairro. Primeiro os traços grossos do lápis, depois os pormenores e por fim as cores.
De seguida pinta margaridas. Muitos jarros de margaridas. Muitos. Muitos. Muitos.
A florista tinha razão e ele não podia deixar que a sua querida ficasse sem flores, um dia. Pintou margaridas até anoitecer.
Três dias depois, à hora habitual do seu passeio, é levado em braços para o Alto de S. João, num bonito caixão de madeira. Não tão bonito como aquele que ia pintar, se tivesse tido tempo.
No bairro nasceu uma fonte, e da varanda da casa onde Augusto se sentava, ainda hoje caiem margaridas até ao chão.
de Tânia Rodrigues

Daisy, Daisy by *rsharts
copyright of the photographer
(fiquei sem palavras ao ler este texto, em cada frase pintava-se na minha imaginação a cena descrita e deixei-me embalar no conto até ao fim, que adorei por ser lindo. Bravo Tánia, adorei... espero que envies muitos mais aqui para o café. Obrigado e desculpa pela demora na edição.)
abril 25, 2008
Ensina-me a Pescar Estrelas
Ensina-me a pescar estrelas
por entre os céus das tuas muralhas de titanio...
Conta-me e ensina-me...
As tuas artimanhas, truques e caminhos
para te deitares sempre sobre um céu estrelado...
e seres tu, brilho, luz alegria e estrela do Norte...
Diz-me , prova-me, que tudo é possível
e que eu aprenderei...
Que amanha como quem sonha
atravessarei as tempestades...os caminhos
inventarei a poção mágica... e essas muralhas de titanio
transformar-se-ão em muralhas saborosas de chocolate
e cobertas de veludo.

Falling Stars by =DesiredAdoration
copyright of the photographer
(o que dizer Cátia?... está lindo... mágico até... tens uma maneira muito própria de sentires as coisas e de as descreveres, espero que continues a escrever assim, porque estaremos aqui todos à espera de mais!)
abril 22, 2008
QUE SEREI?
Sou feito do mar e da terra
Sou feito do amar e da guerra
Sou feito do extravasar da água
Que esculpe a rocha sem mágoa
Sou feito do amor sem trégua
Sem compasso nem régua
Sou o inesperado orvalho que rega
A colorida flor que se entrega
Não sou descanso nem remanso
Não sou a paz que anseias
Sou um tempo de cheias
Que te faz correr o sangue nas veias
Sou pior que uma intempérie
Sou um desvelo em série
Sou o abandono da tua calma
Sou o desejo inocente de tua alma
Sou um mundo feito de teias
Sem enredos nem peias
Sou coisa sem tempo nem espaço
Sou só o que desejas no teu regaço
de António Viana

Avalokiteshvara by i_rabbit
copyright of the photographer
(o que dizer deste poema amigo António?... é lindo, perfeito, e deixa-me sem outras palavras. Tem uma sonoridade e um timbre unicos e transportam-me para muito longe daqui. Obrigado por este momento!)
abril 18, 2008
de certa índia, decerto
aqui, o amarelo arde no céu
na pele, nos quadros
nas vestes novas de verão
já sem teu cheiro
em sonolentas notícias
que se empilham
não mais se escrevem
poemas na areia *
e se as palavras
eu imagino, somente,
ainda lembro.
de Sónia Regina
* referência a josé de anchieta, o jesuíta poeta

India 2 by `aleksandra
copyright of the photographer
(obrigado amiga por este teu poema tão exótico, beijinhos e continuação de boa poesia na tua vida)
abril 16, 2008
Maresia...
Cada vez que o contemplo.
Que respiro essa maresia,
É como cada sonho e fantasia!
Esse mar que me alimenta,
Essa onda que me faz viver,
Esse horizonte que separa,
O querer, o poder e o dever!
Fecho os olhos e divago.
Sinto as ondas a rebentar,
A espuma branca e espessa
Como me querendo abraçar!
Cada alga que descansa
Nas areias que o mar portou.
São como símbolo de vida.
Um segredo que ocultou!
Quando abro os olhos e vejo
Essa corrente de mar.
Faz minha alma sentir,
O quanto é bom acordar!
de Catarina Araujo

Cold sea by ~cristu
copyright of the photographer
(um belo poema para ler nestes dias de mar revolto e invernoso, obrigado Catarina por o partilhares aqui. Ficarei à espera de mais. Aproveito para apresentar as minhas desculpas, uma avaria no computador gerou esta inactividade do café. A normalidade agora deve regressar.)
abril 05, 2008
Free Tibet


Porque há coisas às quais não devemos ser indiferentes.
Porque há pequenos gestos que podem ajudar a fazer a diferença.
Porque é uma questão de consciencia e karma global.
Vamos todos "lutar" por um mundo melhor.

abril 04, 2008
Nos braços do mar
Nas ondas do teu sorriso sereia
Em vagas frescas de mar azul
Serei caravela de vela cheia
No vento quente que vem lá do sul.
No pôr-do-sol do teu olhar medusa
Na espuma da manhã do mar de Abril
Não há homem que este mar não seduza
Com maresia e magia subtil
O mar é mulher bela e misteriosa
Na maré de seus cabelos compridos
E num sorriso que sonha viajar
Diz-nos então mar, mulher perigosa
Nesse teu sal dos teus anos sofridos
Se algum dia tu voltarás a amar
de João Natal

Cabo Raso #6 by Nana Sousa Dias
copyright of the photographer
março 25, 2008
Mantenho a esperança…
Nas asas do desejo sente o meu respirar em torno do teu ouvido… sente como te quero a cada instante, a cada momento, a cada gemido… leva-me a sobrevoar no mais alto dos céus com as tuas asas, as tuas ilusões, os teus sentidos… mostra-me o que é realmente amar, mais do que tudo ensina-me, tira-me desta fastidiosa angustia de não saber sentir, de não saber olhar como quem vê de verdade… pega na minha mão, e embala o meu corpo como se de um manto leve se tratasse, sê meiga com a minha fragilidade… toca os meus olhos cansados e quase sem vida, devagar faz com que os teus dedos se tornem estrelas luminosas, para que nesse instante me devolvas o brilho à muito perdido num gesto subtil de descrença… antes de ti vivia como um pedinte, procurando aqui e ali, algo para desfazer este enorme “nada” que era a minha vida, os meus dias… agora que te encontrei é difícil não pensar em ti, as noites deixaram de ser frias e escuras, o céu voltou a estar estrelado, tudo porque os nossos corações se fundiram num só… tudo porque ainda é possível sonhar… tudo porque ainda não perdi a esperança de te encontrar um dia!...
de Nino Carvalhais

Lovers by ~KubaRalszkowski
copyright of the photographer
(mais um belo texto teu amigo... Obrigado pela tua presença constante e talentosa no poetry café... Temos problemas com o som; não se conseguem encontrar mais motores de busca de mp3 ou streaming decentes na net. Assim irei ter que substituir o som pelo Imeem, com a vantagem de possuir muitas mais opções musicais disponiveis.)
Existe mais poesia no olhar de quem ama de que em mil poemas que se escrevam, mas nem por isso devemos deixar de escrever mil poemas para mostrar ao mundo o que esse olhar dizia... assim nasce o meu humilde blog de poesia...

Viajar no tempo







